O que é e o que não é Psicoterapia?
Hoje, no Brasil, é muito comum encontrar terapias “alternativas” ou “integrativas” que utilizam de métodos e técnicas que “prometem tudo”, mas faltam com embasamento ou são comprovadamente ineficazes.
Com certeza, você já ouviu falar de alguma dessas: Aconselhamento espiritual, tarot, constelação familiar, “trago seu amor de volta”, astrologia, limpeza energética, “quiropraxia emocional”, terapias de conversão (cura gay), qualquer coisa com quântico no nome, Florais de Bach, dentre muitas outras que prometem curas rápidas com métodos duvidosos. O problema aqui é que esse tipo de prática, muitas vezes, é associada a psicoterapia ou vendida como algo até mesmo superior.
Você pode se perguntar “poxa, mas qual o problema em florais ou tarot?”, apesar de parecerem inofensivos, escolher “profissionais” e “métodos” sem regulamentação ou rigor científico pode agravar transtornos, atrasar recuperações e, em casos mais graves, causar danos irreversíveis (fora o gasto financeiro desnecessário). Ou seja, o oposto do que é terapêutico.
O Conselho Federal de Psicologia (2022, p. 15) define o termo Terapia como:
“Terapia” é uma palavra de origem grega utilizada inicialmente na medicina, por Hipócrates e Galeno, e significa “tratamento”; “cura”. Por se tratar de um termo amplo, pode ser utilizado em muitos contextos diferentes e se referir a inúmeras modalidades de tratamento, tais como: terapia medicamentosa, quimioterapia, fisioterapia e, inclusive, “tratamentos” sem base científica. Por isso, seu significado específico é, em geral, determinado pelo contexto em que o termo está inserido; o que nem sempre traz a segurança de uma compreensão adequada.1
O que é, então, a psicoterapia?
No Brasil, temos a RESOLUÇÃO Nº 13, DE 15 DE JUNHO DE 2022, que define no Art. 1º, parágrafo único:
[…] psicoterapia é uma prática de intervenção sustentada por um campo de conhecimentos teóricos e técnicos fundamentados cientificamente, embasada por princípios éticos da profissão, que se desenvolve em contexto clínico e em um relacionamento interpessoal, junto a indivíduos, casais, famílias e demais grupos, decorrente de uma demanda psicológica com o objetivo de promover a saúde mental e propiciar condições para o enfrentamento de conflitos ou transtornos psíquicos.2
Psicoterapia não é só conversar ou desabafar. Psicoterapia envolve:
- Contrato terapêutico;
- Aliança terapêutica;
- Avaliações e diagnósticos;
- Planejamento de intervenções;
- Aplicação de técnicas validadas;
- Monitoramento de progresso.
E tudo isso com uma base empírica sólida e teorias psicológicas validadas cientificamente, que não envolvem nenhum tipo de esoterismo, mística, dogmas ou religião, com o objetivo de aliviar o sofrimento, modificar comportamentos disfuncionais e promover saúde.
Lembrando que essa atividade é um trabalho exclusivo de psicólogos e psiquiatras devidamente formados em ensino superior e com suas devidas especializações, devendo possuir cadastro em seus devidos conselhos profissionais (CRP para psicólogos e CRM+RQE para psiquiatras).
O que NÃO é psicoterapia?
Agora que já definimos psicoterapia como um processo sistemático de promoção de saúde, vamos falar sobre alguns tópicos que não são psicoterapia:
- Conversar com amigos ou familiares.
Esse é um erro muito comum: acreditar que o processo psicoterapêutico é apenas uma conversa, então conversar com os amigos resolveria. O problema é que, como já demonstramos anteriormente, não se trata apenas de uma conversa.
O psicólogo possui uma formação de 5 anos; ele é treinado para que seja possível exercer uma escuta ativa e todo o restante de suas funções, sem julgamento moral e sem tentar impor a você alguma solução ou modificação da qual você não aceite.
Os seus amigos ou familiares vão ter crenças e valores que muitas vezes vão deixar escapar ao te ouvir, fazendo julgamentos morais ou até mesmo diminuindo sua dor (mesmo que sem querer) por meio de comparativos ou realmente da falta de um entendimento aprofundado. Isso pode inclusive trazer conflitos de relacionamento. Claro que aqui não estou afirmando a você que não tenha conversas ou relações interpessoais, mas a psicoterapia vai muito além disso.
- Coaching de vida
No Brasil, houve uma crescente de “coaches”, vendedores de cursos ou palestras que prometem aumentar seu desempenho ou produtividade e melhorar a sua vida. Apesar de, em psicoterapia, nós trabalharmos muito a motivação dos nossos clientes, o coach tem um trabalho superficial e muitas vezes de culpabilização da pessoa, como se a falta de motivação fosse apenas “preguiça” ou “desorganização”, e muitas vezes pode ser algum transtorno ou um problema de ordem biológica, que escapa completamente às capacidades de um coach.
Na psicoterapia, podem-se trabalhar metas, produtividade, desempenho e desenvolvimento pessoal, desde que isso seja uma questão para o paciente e que não seja tratado de forma simplista, reducionista e/ou com frases feitas como: “Acorde 5 horas da manhã, tome um banho gelado e acredite em você mesmo.
- Aconselhamento Religioso
Para não gerar polêmicas, vou apenas citar o Conselho de Ética dos Psicólogos:
Ao psicólogo é vedado […] Induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito, quando do exercício de suas funções profissionais; (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2005, Art. 2º, inc. II)3
A psicologia não é contra a religião. No entanto, o que não pode acontecer é proselitismo religioso dentro do consultório de psicologia (vide psicólogos se intitulando “psicóloga(o) cristã(o)”). E também charlatões que utilizam a religião para vender “curas” e “milagres” ou fazendo pessoas não buscarem os tratamentos adequados para doenças ou transtornos. Esteja muito atento a isso.
Essas são algumas das situações que mais aparecem, fora outras práticas esotéricas ou alternativas sem nenhuma eficácia de tratamento.
Algo muito comum de acontecer também é negar a eficácia da psicoterapia e colocar outras atividades como “melhores”, como, por exemplo, um treino de musculação na academia ou algum tipo de exercício físico, sair com os amigos, viajar, entre outras. Todas essas geralmente possuem efeito terapêutico, uma melhora de humor ou até mesmo bem-estar. Porém, são praticamente efeitos prazerosos “imediatos” ou limitados se comparados com os resultados e efeitos da psicoterapia.
Exercícios físicos, boa socialização e a capacidade de ter tempo de lazer são, sim, muito importantes para uma vida de bem-estar, e muitas vezes essas são atividades trabalhadas em psicoterapia, mas elas, por si só, não tratam ou resolvem os inúmeros problemas que podem ser abordados pela psicoterapia.
O Perigo de Trocar a Ciência pela Crença
O processo de mudança e aprendizado leva tempo. O processo psicoterapêutico leva tempo.
Todo e qualquer tratamento com eficácia científica leva tempo e requer esforço. E aí está uma das grandes chaves para que os charlatães ganhem (além da falta de ética em inúmeros aspectos). Os modos não científicos geralmente propõem resultados imediatos, mudanças drásticas e solução do problema quase que de forma milagrosa, o que é tentador para quem está desesperado, para quem está em sofrimento.
Em um contexto de terapias não baseadas em ciência, se o paciente não melhora, é culpa dele mesmo, que não teve fé o suficiente, que não se esforçou o bastante. Em psicoterapias baseadas em evidências e com rigor ético, se o progresso não está sendo feito, o psicoterapeuta vai realizar ajustes em cooperação com o paciente para que seja possível progredir e entender o que houve, se foi uma recaída, se foi um erro clínico, se houve interferências negativas externas. Evitando o risco de aumentar o sofrimento do paciente.
Substituir a ciência pela crença pode trazer pioras, como, por exemplo, nos transtornos de bipolaridade, esquizofrenia ou até mesmo autismo, que hoje sabemos que não se tratam de uma possessão demoníaca, que não são espíritos malignos no corpo da pessoa ou que não têm tratamento a não ser dietas e rezas. Temos um grande acúmulo de saberes e hoje podemos tratar esses transtornos com medicações e psicoterapias. Diferente dos métodos religiosos antigos, que causavam ainda mais agressividade, violências e até mesmo morte.
O que procurar em um psicólogo?
Depois de tantas informações, seguem algumas dicas para se atentar quando for buscar um profissional que trabalhe com psicoterapia:
- Para um psicólogo exercer sua profissão, é necessário que esteja devidamente cadastrado no órgão competente (Conselho Federal de Psicologia) e ativo.
Para isso, você pode consultar nesse link: https://cadastro.cfp.org.br/
Assim como médicos precisam de CRM e dentistas de CRO, os psicólogos precisam do CRP.
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Hoje, com as redes sociais, geralmente os profissionais possuem algum tipo de perfil ou site; verifique se esse profissional expõe pacientes ou casos. O sigilo é LEI.
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Outra coisa para se atentar é o que já conversamos antes: verifique se o profissional está prometendo alguma cura rápida ou eterna. Se sim, passe bem longe.
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Verifique a abordagem, pergunte qual a base teórica do psicólogo e pesquise sobre. Se o profissional citar leitura de cartas ou atividades de reposição energética, fuja.
Hoje já temos o conhecimento, já temos a expertise, sabemos o que faz bem, o que não faz nada e o que faz mal.
O problema (ao meu ver) está na formação de bons profissionais e na conscientização geral da população, mas, pouco a pouco, vamos trabalhando um futuro melhor.
Por uma prática mais ética e saudável. Por uma prática mais baseada em evidências.
Psicólogo Clínico
Gabriel de Sá Dini
CRP 06/183656
Referências:
Footnotes
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CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Reflexões e orientações sobre a prática da psicoterapia. Brasília: Conselho Federal de Psicologia, 2022. Disponível em: https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2023/06/caderno_reflexoes_e_orientacoes_sobre_a_pratica_de_psicoterapia.pdf. Acesso em: 28 ago. 2026. ↩
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CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução nº 13, de 15 de junho de 2022. Define a psicoterapia como prática privativa do psicólogo e estabelece normas para sua realização. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 16 jun. 2022. Seção 1, p. 45. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-n-13-de-15-de-junho-de-2022-408911936. Acesso em: 28 ago. 2026. ↩
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CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de ética profissional do psicólogo. Brasília: CFP, 2005. Disponível em: https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2012/07/codigo-de-etica-psicologia.pdf. Acesso em: 28 ago. 2026. ↩